terça-feira, 1 de junho de 2021

Soundtrack for unlikely days by Sam S/A

Soundtrack for unlikely days by Sam S/A

terça-feira, 2 de junho de 2020

2020


Quem diria...

Estamos em 2020...

Pandemia Mundial...

e

bolsonaro presidente do brasil...

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Seguimos NA LUTA!

terça-feira, 12 de março de 2019

observação

" O BARULHO DO VELHO
           IMPOSSIBILITA
       ESCUTAR O NOVO."

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Chicken Litte - Como desestabilizar uma nação 1943



Walt Disney

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=5Xgz0ieFyQk


terça-feira, 3 de novembro de 2015

O homem de cabeça de papelão


João do Rio

No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.

O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!

Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.

Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.

Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.

Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.

— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.

— Mas não quero ser nada disso.

— Então quer ser vagabundo?

— Quero trabalhar.

— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.

— Eu não acho.

— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.

Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!

Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:

— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...

O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:

— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.

— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?

Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.

No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.

Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.

— É doido, mas bom.

Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.

— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...

— É da tua má cabeça, meu filho.

— Qual?

— A tua cabeça não regula.

— Quem sabe?

Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.

— Só caso se o senhor tomar juízo.

— Mas que chama você juízo?

— Ser como os mais.

— Então você gosta de mim?

— E por isso é que só caso depois.

Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.

Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.

— Traz algum relógio?

— Trago a minha cabeça.

— Ah! Desarranjada?

— Dizem-no, pelo menos.

— Em todo o caso, há tempo?

— Desde que nasci.

— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...

Antenor atalhou:

— E o senhor fica com a minha cabeça?

— Se a deixar.

— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...

— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.

— Regula?

— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.

Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.

Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.

Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.

— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!

Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.

— Há tempos deixei aqui uma cabeça.

— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.

— Ah! fez Antenor.

— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...

— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.

— Mas a minha cabeça?

— Vou buscá-la.

Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.

— Consertou-a?

— Não.

— Então, desarranjo grande?

O homem recuou.

— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.

Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.

— Faça o obséquio de embrulhá-la.

— Não a coloca?

— Não.

— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.

Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.

— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.

— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.

Antenor ficou seco.

— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.




João do Rio foi o pseudônimo mais constante de João Paulo Emílio Coelho Barreto, escritor e jornalista carioca, que também usou como disfarce os nomes de Godofredo de Alencar, José Antônio José, Joe, Claude, etc., nada ou quase nada escrevendo e publicando sob o seu próprio nome. Foi redator de jornais importantes, como "O País" e "Gazeta de Notícias", fundando depois um diário que dirigiu até o dia de sua morte, "A Pátria". Contista romancista, autor teatral (condição em que exerceu a presidência da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, tradutor de Oscar Wilde, foi membro da Academia Brasileira de Letras, eleito na vaga de Guimarães Passos. Entre outros livros deixou "Dentro da Noite", "A Mulher e os Espelhos", "Crônicas e Frases de Godofredo de Alencar", "A Alma Encantadora das Ruas", "Vida Vertiginosa", "Os Dias Passam", "As religiões no Rio" e "Rosário da Ilusão", que contém como primeiro conto a admirável sátira "O homem da cabeça de papelão". Nascido no Rio de Janeiro a 05 de agosto de 1881, faleceu repentinamente na mesma cidade a 23 de junho de 1921.

O texto acima foi extraído do livro "Antologia de Humorismo e Sátira", organizada por R. Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1957, pág. 196.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Ilha - Uma história contada em 2035.

A Ilha

Havia uma ilha.
Nessa ilha, todos gostavam muito de comer banana. Principalmente das dos tipos Prata e Nanica. Muitos não entendiam como poderia se gostar do outro tipo. - A Prata é melhor! - Não, a Nanica é a melhor! - Chegavam a bradar nas ruas, nos bares, estádios, shows, jornais, internet e até igrejas! Haviam muitos que gostavam também da banana Maçã e alguns que gostavam da banana da Terra e já outros que só comiam da banana Ouro. Mas a Prata e a Nanica eram as mais consumidas.
Em todo canto da ilha se discutia sobre qual a melhor banana. 
As pessoas se dividiam. Deviam estar ou de um lado ou do outro. Sem meio termos.
E a maioria das pessoas tinham trabalhos relacionados a bananas. Tudo girava em torno delas: Produtores de banana, colhedores de bananas, vendedores de bananas, transportadores de banana. Gente que fazia propagandas de bananas, gente que ensinava como se vender bananas, gente que contava a história da banana, gente que desenhava bananas. Logística, Administração, Contabilidade, Marketing. Tudo em torno da banana. Era uma luta diária para se vender, comprar e comer da melhor banana. Estavam nas revistas, jornais, T.V, internet e rádios. Especialistas e comentaristas de bananas por toda a parte.
Banana frita, banana com mel, banana split. Doce de banana, torta de banana, caramelizada, purê, rabanada, enfim, todas de todos os jeitos. Nas refeições ou nas sobremesas.
A maior parte do mercado eram, claro, da Prata e Nanica, que usavam todos os artifícios para se manterem como maioria. E lutavam entre si para dominarem a totalidade. Maçãs, Ouro ou da Terra iam na cola. Todas coadjuvantes.
Para comprar sua banana favorita, muitas vezes as pessoas trabalhavam para empresas da banana concorrente, vejam só. A pessoa podia trabalhar no transporte de bananas Prata para ter dinheiro para comprar a banana da Terra ou a Maçã. Ou para um dia chegar a comer só da Ouro. E não só trabalhavam diretamente com bananas, mas indiretamente também. Desenvolviam tecnologia para acompanhar as vendas de bananas, levantavam recursos humanos para trabalharem com bananas, onde só os mais preparados eram selecionados. Era competitivo. Formavam conselhos e fiscalizavam tudo relacionado a bananas.
A economia, a política, as organizações e até os esportes na ilha giravam em torno das bananas, já que até estádios eram construidos financiados por poderosos empresários do ramo bananício.
 
Os bancos emprestavam dinheiro para quem queria comprar bananas para a vida toda. garantir o futuro.

A Ilha era uma loucura. Muita competição, corrupção e disputas afim de manter-se a supremacia e o monopólio da banana.
Se diziam uma democracia, mas para quem olhava de fora, ou não participava, era a república da banana.
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No meio de tudo isso e apesar de serem a minoria e estarem convivendo na mesma ilha, havia pessoas que conheciam e comiam muitas outras frutas. Morangos, Uvas, Mexericas, Mangas, Laranjas, Limões e Acerolas. Jabuticabas, Kiwis, Carambolas, Caquis, Mamões, Maracujás, Pêras, Maçãs, Melões, Pêssegos, Melancias, Abacaxis, Pitangas e até Cambucis, entre centenas de outras.
Essas pessoas tentavam dizer e mostrar às outras que haviam essas outras frutas deliciosas. Milhares de sabores diferentes. Azedos e amargos, tantos doces e néctares diferentes, cítricas ou polpudas. Cores e nutrientes diferentes. Trocavam frutas entre si, conversavam e estudavam todas as frutas.

Mas essas pessoas eram pouco ouvidas. A maioria da população ainda estava a comer e defender essa ou aquela banana. Nas escolas, estudos de bananas. E elas realmente eram as maiores geradores de empregos. Alguns professores até falavam das outras frutas, mas a Cultura da banana estava fortemente enraizada na população da ilha. 
Nascia-se, crescia-se e perpetuava-se a cultura da banana.

À margem de tudo isso, viviam suas vidas comendo sua grande diversificação de frutas diferentes, aprendendo sobre outras, ampliando seu cardápio e sempre mostrando a todos que quisessem experimentar.
Podia-se falar de outras frutas e viver a vida comendo e trabalhando com elas. Criando receitas diversas, pessoas viajavam para outras ilhas procurando por outras frutas, por novas experiências e sabores. Quem gostava de morangos podia se dedicar a trabalhar com eles. Deliciosas e coloridas saladas de frutas eram criadas, numa mistura enriquecedora de receitas.

Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que um governo autoritário baniu a liberdade de se comer outras frutas. Era a ditadura da banana. E foi difícil para quem gostava de outras frutas. Pessoas eram presas, torturadas e até mortas se pegas consumindo ou até falando sobre outras frutas.
Aos poucos, toda essa bagunça econômica e cultural da banana foi-se desgastando. Devido a tantas brigas pela supremacia da banana, a busca pelo controle total das do tipo Prata e Nanica e as da Terra, Maçã e Ouro tentando entrar na onda. Os preços desequilibraram, elevando-se absurdamente. Inflações e impostos. Empresas de banana deviam aos bancos, fechavam e geravam desempregos recordes. Com o desemprego e o alto preço das bananas, as pessoas não conseguiam comprá-las. Falências aos montes. Represas secavam. Todos os olhos eram voltados para as bananas. Nunca para outras frutas nem o meio ambiente, a terra e suas fontes de energia. Por fim, o colapso foi inevitável. Pânico.
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Com isso, as pessoas foram forçadas a encontrarem saídas e soluções. Começaram aos poucos a perceber as outras frutas. Seus sabores e infinitos benefícios. 
Logo, começaram a plantar em seus quintais as mais variadas espécies e transformar suas garagens em quitandas. Quem plantava e vendia uvas comprava abacates ou mangas dos vizinhos. Quem plantava goiaba também comia peras e melancias. Não precisavam mais atravessar a cidade para trabalhar com bananas. Nem para comprá-las. Não havia intermediários. Nem donos de grandes monopólios de plantações. O trânsito diminuiu, o tempo antes gasto com ele e outras atividades bananícias agora eram usados para estudos de outras frutas, para artes, para lazer, viagens. Um mundo de descobertas se abria à frente de todos. De oportunidade, igualdade e liberdade de recomeçar.
Claro, ainda haviam os que insistiram na banana por um tempo. Reconstruir seus impérios. Depois perceberam que era uma guerra em vão, pois a ilha agora já compartilhava de todas as frutas. Era necessário recomeçar, necessário reeducar-se. 
Outros poucos partiram para outras ilhas, tentar reinar onde a banana ainda reinava.
A saúde de todos se fortificou, assim como o coletivismo. Havia trabalho para todos, já que haviam centenas de frutas diferentes e muitos tipos diferentes entre elas. Muitas formas de manuseá-las, de experimentar receitas.
O passado parecia remoto agora. História. Mas olhando para trás, incrível como não percebíamos o que estavam fazendo. Uma insana obsessão por bananas enquanto um imenso pomar multi-colorido, multi-sensitivo estava bem debaixo dos nossos pés.

Agora na ilha, a cada mês festividades com as frutas da época;
Há excursões para conhecer frutas exóticas de outras terras;
Há pomares coletivos por todo lugar;
A água é cuidada com carinho, pois é a principal fonte de alimento de todas as frutas; 
Os restos das frutas são usados como combustível, eternamente renovável e limpo. E como alimento para outros animais.
Toda a ilha tornou-se muito fértil, já que as cascas das frutas, ao morrerem e apodrecerem se tornam também os próprios adubos e alimentos de suas terras e árvores. 
A morte alimentando a vida num ciclo sem fim.
Pois muitas vezes, para algo nascer, outra tem que morrer. Seja uma fruta ou uma consciência.
A fauna e a flora resplandeceram. 
E há cores brilhantes e músicas ecoando por toda a ilha.
Smsj
 
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tá na média



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Crianças são coisa séria!


Esse campo fica no Jardim Popular. Zona Leste de SP. Finalzinho da Av. Amador Bueno da Veiga. Atrás do campo, "dizem" ter uma rua "estranha" e tem fama de passar gente "estranha" por lá. Periferia é assim mesmo, oras. Quem tem medo é porquê nunca frequentou a várzea e nunca viveu em BAIRRO! E o medo também gera violência e blás e blás...

 Um monte de "verdades adultas", de gente desconfiada até da própria sombra. E isso só cresce.

O Yuri se diverte pra caramba lá (e eu também) e eu nunca disse a ele que lá é perigoso. Para quê? Ploriferar pré-conceitos? Instigar pensamentos "estranhos" nele? E ele passar a se sentir o tempo inteiro "acuado"? E é tão ou mais perigoso do que qualquer outro lugar? 

Sempre interagimos com todos por lá, igualzinho quando no Sesc, por exemplo. E é de graça!

Saudades dos centenas de Campos de Várzea de São Paulo.

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Crianças são sempre aventureiras! E é simplesmente inspirador estar ao lado delas para uma aventura.

Para elas não importa se é longe ou não. Não têm noção de quão longe ou perto possa ser. O que importa é que lá será muito legal. E fazem do trajeto uma viagem lúdica. Você lança a idéia e eles já estão lá, no minuto seguinte, fazendo seus planos.

Assim como nós, adultos.

Mas adultos são muito acomodados. Relutam em aventurar-se. Criam inúmeras "responsabilidades e compromissos mil" e se esquecem das emoções de desbravar algo desconhecido.



Em São Vicente, litoral Paulista, tem um teleférico que foi um desafio para todos nós. Mas eles me encorajaram.





E a vista vale a pena. Sensacional!







segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Mano do Céu!

Aldous Huxley previu em 1958 o que aconteceu na América Latina poucos anos depois...

https://www.youtube.com/watch?v=2cF-GW0TQkI&feature=em-share_video_user


https://www.youtube.com/watch?v=oytAdRoj_1A

E o inspirador Presidente do Uruguai, Sr. José Mujica que combateu esses regimes vaidosos, egóicos e tiranos, sofreu na prisão por 10 anos, se reergueu e se torna um líder humanitário raro. Inclusive perdoando seus torturadores.

Maravilhoso!

https://www.youtube.com/watch?v=KTksYBjX2kY&app=desktop

...engraçado perceber a "brasilidade" das perguntas dos repórteres, diante de figura tão "exótica"...E perguntas (pertinentes, aliás) sobre as estruturas das questões. E o velhinho mostrou estar a par de todos os assuntos políticos do seu país e de outros.

...quando a gente vê isso dá uma vontade danada lá por dentro de ir viver lá. Ou mais especificamente, em algum lugar que imaginamos que seja lá. Mas também dá vontade de ficar e ajudar aqui a seguir exemplos como os de lá...



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Outros quadrinhos - Lápis Zen

Aqui tem mais: http://outrosquadrinhos.com.br/serie/lapis-zen/

Sensacional! É um melhor que o outro.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

2014


Tenho me esforçado um pouco mais...

E muitas coisas têm mudado em mim.

Já vem de algum tempo (ou sempre?), mas 2014 se mostrou um ano repleto de descobertas muito bacanas...

Muitas coisas têm me ajudado a mudar minha percepção de mim mesmo, e consequentemente minha visão do mundo...desfazendo pré conceitos, conceitos errados, aberto novas possibilidades, novas perspectivas...novas esperanças...


-  Tenho realizado sempre que possível, pequenos passeios por várias cidades. Simplesmente pegar o carro e ir. Literalmente desconectar da internet, levantar a bunda do sofá e ver a vida real ao vivo. Também algumas pelo trabalho formal ou também viajando com a banda. E todas as experiências foram especiais. Todas foram visitas breves, porém que já deixam uma marca na gente. Um fragmento na memória. Brasília, São Thomé das Letras, Embú das Artes, Florianópolis, Goiânia, Caraguatatuba, Bertioga, Paranapiacaba, São Vicente, São Sebastião, Jaraguá do Sul, Santa Maria, Curitiba, Três Corações e algumas outras. Só de sair de uma mega metrópole como São Paulo, já percebemos realidades diferentes, percepções diferentes, enfim, mais calor humano, mais solidariedade, mais amizade...Da grande maioria desses lugares citados, só trouxe comigo sentimentos e ensinamentos bons...;

- Experimentar comidas diferentes também só nos enriquece. Mexicana, Árabe, Chilena, Mineira...do amigo, da amiga...todas com suas riquezas e peculiaridades; que venham mais Ceviche, Guacamole, Babaganuche, Pastel de Choclo...;
 
- Aprender a cozinhar também é incrivelmente inspirador e porque não, terapêutico? E dá-lhe nóz moscada, cheiro verde, cebolinha, mostarda, coentro, pimenta do reino, salsinha, peixes, caldos, e o que vier para enriquecer;

- Músicas de todas as vertentes possíveis passaram pelos meus ouvidos: Tim Maia, Ed Motta, Metallica, Lorde, Phoenix, Rod Stewart, Bob Marley, Racionais Mc's, Bruce Springsteen, Atoms for peace, Raul Seixas, Eels, The Zombies, Mohamed Mounir, Chet Baker, Death Cab for Cutie, Marisa Monte, of Montreal, e dezenas de outras, novas ou velhas, brasileiras ou gringas, não importa. Se eu não conheço bem, vou procurar ouvir. Tudo isso só me surpreendeu de maneira positiva;

-  Acho que bati disparado o meu recorde de livros lidos num ano. Estou até com dificuldades de lembrar de todos. Vamos ver...O Lobo da Estepe, O Macaco e a essência, Novembro de 63, Sob a Redoma é deste ano? Doutor Sono, Coisas Frágeis, Sandman, O Torreão, Biografia do Cliff Burton....é...não vou lembrar nem metade e não estou na minha estante agora...;

- Gaudí;
- Filmes diversos;
- Shows;

- Quando possível, sempre acompanhando, um breja bacana, só para aguçar mais um pouco...hehe


E bora para mais um ano de descobertas. Com a arte em todas as suas formas sempre me auxiliando a desvelar o mundo e a mim mesmo. Ontem mesmo Yuri me perguntou: - Papai, o que é convicção? - É alguém achar que tem certeza sobre alguma coisa, respondi. - E você tem certeza de tudo? - Não Yuri, não tenho certeza sobre tudo. Foi minha sincera resposta para ele. Não sei se um dia saberemos de tudo, mas correr atrás de algo aparentemente infinito é que torna essa viagem emocionante e nos faz ver como somos pequenos e ao mesmo tempo grandes. Pois fazemos, em todos os sentidos, parte de algo muito maior. Somos o que comemos, somos o que expressamos, somos a sociedade, o planeta...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Strawberry Fields Forever


Let me take you down
'Cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
And nothing to get hung about
Strawberry fields forever

Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see
It's getting hard to be someone
But it all works out
It doesn't matter much to me

Let me take you down
'Cause I'm going to strawberry fields.
Nothing is real
And nothing to get hung about
Strawberry fields forever

No one I think is in my tree
I mean, it must be high or low
That is, you can't, you know, tune in
But it's all right
That is, I think it's not too bad

Let me take you down
'Cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
And nothing to get hung about
Strawberry fields forever

Always, no sometimes, think it's me
But you know I know when it's a dream
I think I know I mean a yes
But it's all wrong
That is I think I disagree

Let me take you down
'Cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
And nothing to get hung about
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

The Long and Winding Road

The Long and Winding Road
That leads to your door
Will never disappear
I've seen that road before
It always leads me here
Lead me to your door

The wild and windy night
That the rain washed away
Has left a pool of tears
Crying for the day
Why leave me standing here
Let me know the way

Many times I've been alone
And many times I've cried
Anyway you'll never know
The many ways I've tried

But still they lead me back
to the Long Winding Road
You left me standing here
A long long time ago
Don't leave me waiting here
Lead me to your door

But still they lead me back
To the long winding road
You left me standing here
A long time ago
Don't keep me waiting here
Lead me to your door

Essa é para se ouvir de joelhos...

terça-feira, 7 de outubro de 2014

The Universal - Blur



This is the next century
Where the universals free
You can find it anywhere
Yes the future's been sold
Every night we're gone
And to Karaoke songs
How we like to sing along
Though the words are wrong

It really really really could happen
Yes it really really really could happen
When the days they seem to fall through you
Just let them go

No one here is alone
Satellites in every home
Yes the universals here
Here for everyone
Every paper that you read
Says tomorrow your lucky day
Well here's your lucky day

It really really really could happen
Yes it really really really could happen
When the days they seem to fall through you
Just let them go

Well it really really really could happen
Yes it really really really could happen
When the days they seem to fall through you
Just let them go

Just let them go

Just let them go

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Perfect day

Just a perfect day
Drink sangria in the park
And then later when it gets dark
We go home

Just a perfect day
Feed animals in the zoo
Then later a movie too
And then home

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

Just a perfect day
Problems all left alone
Weekenders on our own
It's such fun

Just a perfect day
You made me forget myself
I thought I was someone else
Someone good

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
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Lou Reed

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

o passado




http://mentirinhas.com.br/

domingo, 31 de agosto de 2014

sejamos...

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias.
A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nos queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-proprios.
Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses.
Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, em "Odes" 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Lobo da Estepe


...Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender,e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes. As pessoas argutas poderão discutir a propósito de ser ele realmente um lobo, de ter sido transformado, talvez antes seu nascimento, de lobo em ser humano, ou de ter nascido homem, porém dotado de alma de lobo ou por ela dominado ou, finalmente, indagar se essa crença de que ele era um lobo não passava de um produto de sua imaginação ou de um estado patológico. É admissível, por exemplo, que, em sua infância, fosse rebelde, desobediente e anárquico, o que teria levado seus educadores a tentar combater a fera que havia nele, dando ensejo assim a que se formasse em sua imaginação a ideia e crença de que era, realmente, um animal selvagem,coberto apenas com um ténue verniz de civilização. A esse propósito poder-se-iam tecer longas considerações e até mesmo escrever, livros; mas isso de nada valeria ao Lobo da Estepe, pois para ele era indiferente saber se o lobo se havia introduzido nele por encantamento, à força de pancada ou se era apenas uma fantasia de seu espírito. O que os outros pudessem pensar a este respeito ou até mesmo o que ele próprio pudesse pensar, em nada o afetaria, nem conseguiria afetar o lobo que morava em seu interior.
 
O Lobo da Estepe tinha, portanto, duas naturezas, uma de homem e outra de lobo; tal era o seu destino, e nem por isso tão singular e raro. Deve haver muitos homens que tenham em si muito de cão ou de raposa, de peixe ou de serpente sem que com isso experimentem maiores dificuldades. Em tais casos, o homem e o peixe ou o homem e a raposa convivem normalmente e nenhum causa ao outro qualquer da no; ao contrário, um ajuda o outro, e muito
homem há que levou essa condição a tais extremos a ponto de dever sua felicidade mais àraposa ou ao macaco que nele havia, do que ao próprio homem. Tais fatos são bastante conhecidos. No caso de Harry, entretanto, o caso diferia: nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, nem sequer se ajudavam mutuamente, mas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dano ao outro, e quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. Bem, cada qual tem seu fado, e nenhum deles é leve. 
 
 Com nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua cons-ciência, vivia ora como lobo, ora como homem, como acontece aliás com todos os seres mistos. Ocorre, entretanto, que quando vivia como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo, se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas bo as ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes e ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de ura lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir alguma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes aos outros, quando sentia ódio e inimizade a todos os seres humanos e a seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Precisamente aí era que a parte humana existente nele se punha a espreitar o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe toda a satisfação de sua saudável e simples natureza lupina.
Era isso o que ocorria ao Lobo da Estepe, e pode-se perfeitamente imaginar que Harry não levasse de todo uma vida agradável e feliz. Isto não quer dizer, entretanto, que sua infelicidade fosse por demais singular (embora assim lhe pudesse parecer, da mesma forma como qualquer pessoa toma o sofrimento que se abate sobre ela como sendo o maior do mundo). Isso não pode ser dito a propósito de ninguém. Mesmo aquele que não tem em seu interior um lobo, nem por isso pode ser considerado mais feliz. E mesmo a mais infeliz das existências tem os seus momentos luminosos e suas pequenas flores de ventura a brotar entre a areia e as pedras. Assim acontecia também com o Lobo da Estepe. Não se pode negar que fosse, em geral, muito infeliz, e podia também fazer os outros infelizes, especialmente quando os queria ou era por eles estimado. Pois todos os que com ele se deram viram apenas uma das partes de seu ser. Muitos o estimaram por ser uma pessoa inteligente, refinada e arguta, e mostraram-se horrorizados e desapontados quando descobriam o lobo que morava nele. E assim tinha de ser pois Harry, como toda pessoa sensível, queria ser amado como um todo e, portanto, era exatamente com aqueles cujo amor lhe era mais precioso que ele não podia de maneira alguma encobrir ou perjurar o lobo.
Havia outros, todavia, que amavam nele exatamente o lobo, o livre, o selvagem, o indómito, o perigoso e o forte, e estes achavam profundamente decepcionante e de plorável quando o selvagem e perverso se transformava em homem, e mostrava anseios de bondade e refinamento, gostava de ouvir Mo-zart, de ler poesia e acalentar ideais humanos. Em geral, estes se mostravam mais desapontados e irritados do que os outros, e dessa forma o Lobo da Estepe levava sua própria natureza dual e discordante aos destinos alheios toda vez que entrava em contato com as pessoas.
Quem, entretanto, imaginar que conhece o Lobo da Estepe e pode analisar sua existência lamentavelmente dividida, incorrerá, sem dúvida, em erro, pois ainda não sabe tudo. Não sabe
que (como não há regra sem exceção e como um simples pecador em certas circunstâncias pode ser mais querido a Deus do que noventa e nove justos) Harry também conhecia de quando em vez exceções e momentos ditosos em que, tanto o lobo quanto o homem podiam respirar, pensar e sentir em harmonia, e mesmo em raras ocasiões estabelecer a paz e viver um
para o outro de tal forma que não apenas um vigiava enquanto o outro dormia, mas também se fortaleciam ambos e cada um duplicava a energia do outro. Também na vida desse homem parecia, como em todas as panes do mundo, que o costumeiro, o consuetudinário, o conhecido
e o normal tinham simplesmente por objeto permitir de quando em quando a pausa de um segundo de duração para dar lugar ao extraordinário, ao milagroso, à graça. Se tais curtas e raras horas de ventura compensavam e dulcifícavam a triste sina do Lobo da Estepe, de forma que a felicidade e a desventura viessem a equilibrar-se finalmente na balança, ou se, talvez, este breve mas intenso usufruir daquelas poucas horas compensava todo o sofrimento e deixava um saldo favorável de alegria, é uma questão sobre a qual podem meditar as pessoas ociosas a seu talante. Também o Lobo meditava muito sobre isso, em seus dias mais ociosos e inúteis.
A esse propósito há que acrescentar algo. 
Muita gente existe que se assemelha a Harry; especialmente muitos artistas pertencem a essa classe de homens. Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior; há neles uma parte divina e uma satânica, há sangue materno e paterno, há capacidade para a ventura e para a desgraça, tão contrapostas e hostis como eram o lobo e o homem dentro de Harry. E esses homens, para os quais a vida não oferece repouso, experimentam às vezes, em seus raros momentos de felicidade, tanta força e tão indizível beleza, a espuma do instante de ventura emerge às vezes tão alta e deslumbradora sobre o mar da dor, que sua luz, espargindo radiância, vai atingir a outros com o seu encantamento. A isto se devem, a essa preciosa e momentânea espuma sobre o mar do sofrimento, todas aquelas obras artísticas em que o homem solitário e sofredor se eleva por uma hora tão alto sobre o seu próprio destino, que sua felicidade brilha como uma estrela, e parecem a todos os que a vêem como algo eterno e como se fosse seu próprio sonho deventura. Todas essas pessoas, sejam quais forem seus atos e obras, não têm propriamente uma vida, ou seja, sua vida carece de essência e de forma, não são heróis, nem artistas, nem pensadores da maneira como os demais homens são juizes, doutores, sapateiros ou mestres; sua existência é um movimento de fluxo e refluxo, está infeliz e dolorosamente partida e é sinistra e insensata, se não estivermos propensos a ver um sentido precisamente naqueles raros acontecimentos, ações, pensamentos e obras que brilham às vezes sobre o caos de semelhante vida. Entre os homens dessa espécie surgiu o perigoso e terrível pensamento de que, talvez, toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um aborto brutal da mãe primeva, um cruel e selvagem intento frustrado da Natureza. Mas entre eles surgiu também a ideia de que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o filho de Deus destinado à imortalidade.
Cada espécie de homens tem suas características, seus aspectos, seus vícios e virtudes e seus pecados mortais. Um dos signos do Lobo da Estepe era o de ser um noctívago. A manhã era para ele a pior parte do dia, causava-lhe temor e nunca lhe trouxera nada de bom. Nunca fora alegre em qualquer manhã de sua vida, nunca fize ra nada de bom na primeira metade do dia, não tivera boas ideias, nem divisara nenhuma alegria para ele ou para os demais. Ao começar a tarde, ia reagindo lentamente, principiava a se animar e, ao cair da noite, em seus melhores dias, tornava-se frutífero, ativo e, às vezes, até brilhante e alegre. Disso decorria sua necessidade de isolamento e de independência.
Nunca existira um homem com tão profunda e apaixonada necessidade de independência como ele. Em sua juventude, quando ainda era pobre e tinha dificuldades em ganhar a vida, pr
eferia passar fome e andar mal vestido a sacrificar uma parcela de sua independência. Nunca se vendera por dinheiro ou vida fácil às mulheres ou aos poderosos, e mil vezes desprezara o que aos olhos do mundo representa vantagens e regalias, a fim de salvaguardar a sua liberdade. Nenhuma ideia lhe era mais odiosa e terrível do que a de exercer um cargo, submeter-se a horários, obedecer a ordens. Um escritório, uma repartição, uma sala de audiência eram-lhe tão odiosos quanto a morte, e o que de mais espantoso podia imaginar em sonhos seria o confinamento num quartel. Sabia subtrair-se a todas essas coisas, a custo de grandes sacrifícios e nisso residia sua força e virtude, nisso era inflexível e incorruptível, nisso seu caráter era firme e retilí-neo. Só que a essa virtude estavam intimamente ligados seu sofrimento e seu destino. Ocorria a ele o que se dá com todos o que buscava e desejava com um impulso íntimo de seu ser acabava por ser-lhe concedido, mas em grau demasiadamente superior ao que convém a um homem. A princípio, o que obtinha parecia-lhe um sonho e uma satisfação, mas logo se revelava como sendo o seu amargo destino. Assim, o poderoso era arruinado pelo poder, o rico pelo dinheiro, o subserviente pela submissão, o luxuoso pela luxúria. O Lobo da Estepe perecia por sua própria independência. Havia alcançado sua meta, seria sempre independente, ninguém haveria de mandar nele, jamais faria algo para ser agradável aos outros. Só e livre, decidia sobre seus atos e omissões. Pois todo homem forte alcança indefectivelmente o que um verdadeiro impulso lhe ordena buscar. Mas em meio à liberdade alcançada, Harry compreendia de súbito que essa liberdade era a morte, que estava só, que o mundo o deixara em paz de uma inquietante maneira, que ni nguém mais se importava com ele, nem ele próprio, e que se afogava aos poucos numa atmosfera cada vez mais ténue de falta de relações e de isolamento. Havia chegado ao momento em que a solidão e a independência já não eram seu objetivo e seu anseio, mas antes sua condenação e sua sentença. O maravilhoso desejo fora realizado e já não era possível voltar atrás e de nada valia agora abrir os braços cheio de boa vontade e nostalgia, disposto à fraternidade e à vida social. Tinham-no agora deixado só.
Não que fosse motivo de ódio e de repugnância. Pelo contrário, tinha muitos amigos. Um grande número de pessoas o apreciava. Mas tudo não passava de simpatia e cordialidade; recebia convites, presentes, cartas gentis, mas ninguém vinha até ele, ninguém estava disposto
nem era capaz de compartilhar de sua vida.
Agora rodeava-o a atmosfera do solitário, uma atmosfera serena da qual fugia o mundo em se
u redor, deixando-o incapaz de relacionar-se, uma atmosfera contra a qual não podia prevalecer nem a vontade nem o ardente desejo. Esta era uma das características mais significativas de sua vida.
 
...
 
(trecho de O Lobo da Estepe - Hermann Hesse)