segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Lago - Ray Bradbury

O Lago
A onda me desligou do mundo, dos pássaros no céu, das crianças na praia, de minha mãe sentada na areia. Houve um momento de silêncio, verde silêncio. E depois a onda me devolveu o céu, a areia e a algazarra das crianças. Saí da água, o mundo esperava por mim, mal se movera desde o momento em que me afastara. Corri pela praia. Mamãe me enxugou com uma toalha felpuda, e disse: — Agora fique de pé, para secar. Lá fiquei, observando o sol remover as gotículas d'água de meus braços. Eu as substituí pelo arrepio da pele. — Olha o vento — mamãe disse —, vista o blusão. — Espera; estou olhando as bolinhas na minha pele. — Harold!
Vesti o blusão e fiquei a observar as ondas subirem e quebrarem na praia. Não por acaso, porém. Fora proposital, com uma certa elegância, uma elegância verde. Nem mesmo um bêbado apagaria diante de tanta elegância daquelas ondas. Era setembro. Nos últimos dias, quando as coisas já ficam tristes mesmo sem motivo. A praia era muito comprida, solitária; apenas seis pessoas. As crianças já haviam parado de jogar bola. O vento, de algum modo, já as entristecera também, assobiando dessa maneira; as crianças se sentaram e sentiram o outono chegar naquela praia infindável.
Todas as barraquinhas de cachorro quente já se encontravam lacradas com placas douradas, encerrando toda mostarda, toda cebola, todos os odores de carne do longo verão, alegre. Foi o mesmo que pregar o verão numa porção de caixões. Um por um, os lugares amavam as tampas, com estrépito, trancavam as portas, e o vento chegava, tocava a areia, apagando as milhões de pegadas de julho e agosto. E tanto foi assim que, agora, em setembro, havia apenas as marcas dos meus tênis, e dos pés de Donald e Delaus Arnold, lá junto à orla da água. A areia soprava em cortinas nas calçadas; o carrossel, oculto sob a lona; os cavalinhos congelados no ar, nos tubos de metal, exibiam dentes, em posição de galope. Como música, apenas o vento atravessando a lona, furtivo. Lá estava eu. Todo o resto, na escola. Menos eu. Amanhã, de trem, eu estaria atravessando os Estados Unidos, rumo oeste. Mamãe e eu viéramos para a praia, passar juntos o último e breve momento.
Alguma coisa na solidão me fez desejar correr sozinho. — Mamãe, quero ir correr pela praia, bem longe. — Está bem, mas volte rápido, e não chegue perto da água. Corri. A areia levantava debaixo de mim e o vento me levantava. Você sabe como é, quando a gente corre, os braços esticam e a gente sente véus saindo dos dedos, por causa do vento. Como se fossem asas. Com a distância, mamãe se afastava, sentada. Logo se transformaria apenas num espeto marrom, e eu estava só. Estar só é uma novidade para um garoto de doze anos de idade, tão acostumado a ter pessoas ao redor. A única maneira que tem para ficar só é na própria mente. Existem tantas pessoas reais por aí, dizendo o que as crianças têm que fazer, e como, que resta a um garoto sair correndo pela praia, mesmo que a praia esteja apenas em sua imaginação, para ficar só em seu próprio mundo. Assim, agora, eu estava realmente sozinho. Entrei n'água, deixei-a esfriar-me até a altura do estômago. Antes, sempre no meio da multidão, jamais tivera a ousadia de olhar, de vir até este lugar e chamar um certo nome. Agora, porém... A água é como um mágico. Nos serra ao meio. É como se fôssemos cortados em dois, e uma parte, a parte inferior, açúcar, derrete, dissolve. Água fria, e, de vez em quando, uma onda tropeça, muito elegante, e desliza com um adorno de renda. Gritei o nome dela. Mais de dez vezes, gritei. — Tally! Tally! Que pena, Tally... Quando somos jovens, sempre esperamos que respondam aos nossos chamados. Sentimos, então, que tudo o que pensamos é real. E às vezes, até, isto não chega a ser um absurdo. Pensei em Tally nadando, entrando no lago, no mês de maio que passou, e no rastro das trancinhas, louras. Ela ria, e o sol batia naqueles pequeninos ombros, de doze anos. Pensei na água, que ficou tranqüila, no salva-vidas entrando aos saltos, na mãe de Tally gritando, e em Tally, que nunca mais voltou. O salva-vidas tentou persuadi-la a sair, mas Tally não saiu. Ele trouxe apenas, nas juntas dos dedos, vigorosas, pedacinhos de plantas d'água; Tally se fora. Na escola, já não mais a veria sentada lá do outro lado; nas noites de verão, pelas ruas, não mais iria apanhar as bolas que caíam dentro das casas de paredes de tijolos. Ela se distanciara muito, e o lago não permitiria que regressasse.
E agora, no outono solitário, o céu imenso, a água imensa, a praia tão comprida, eu viera pela última vez, só. Gritei o nome dela diversas vezes. Tally, que pena, Tally! O vento soprava tão leve nos meus ouvidos, do jeito que o vento sopra na abertura das conchas e as faz sussurrar. A água subia, envolvia meu peito, depois meus joelhos, subia e descia, sempre puxando por baixo dos meus calcanhares. — Tally! Volte, Tally! Eu tinha apenas doze anos. Mas sei o quanto eu a amava. Um amor que vem antes de qualquer significado de corpo, de moralismos. Um amor sem maldade, como o vento, o mar, a areia, lado a lado, para sempre. Feito de dias demorados, quentes, juntos, na praia, e de dias tranqüilos, de cochichos, na lengalenga do colégio. Passaram-se os longos dias do outono de muitos anos desde o dia em que eu a acompanhei até sua casa, carregando seus livros. —Tally! Gritei o nome dela pela última vez. Tiritei. Senti a água tocar o meu rosto, e nem sei como isso foi acontecer. A rebentação não estava tão alta assim. Virei-me, recuei até a areia e ali fiquei por meia hora, na esperança de um lampejo, um sinal, um pedacinho de Tally de que pudesse me lembrar. Então, ajoelhei-me e construí um castelo de areia, modelando-o com apuro, construindo-o do jeito que Tally e eu costumávamos construir os muitos que fizemos. Dessa vez, porém, construí apenas metade. E me levantei. — Tally, se você estiver me ouvindo, venha, construa o resto. Saí dali, rumo àquele espeto distante: mamãe. A água subiu, fundiu o castelo e areia, arco por arco, e desbastou-o, pouco a pouco, refazendo a uniformidade original. Em silêncio, caminhei pela orla. Lá longe, o carrossel desentoou. Fora o vento, apenas. No dia seguinte, tomei o trem. Trens não têm boa memória. Logo deixam tudo para trás. Esquecem os milharais de Illinois, os rios da infância, as pontes, os lagos, os vales, as fazendas, as dores e as alegrias. Passam e deixam tudo espalhado, e tudo volta ao horizonte. Estiquei meus ossos, coloquei carne neles, troquei minha mente jovem por uma mais velha, joguei fora as roupas que não mais serviam, saí do primeiro para o segundo ciclo, e para a universidade. E surgiu uma moça em Sacramento. Depois de conhecê-la por algum tempo, nos casamos. Na época, eu tinha vinte e dois anos, e já quase me esquecera de como era o Leste.
Margareth sugeriu que passássemos nossa lua-de-mel, tão demorada, naquelas bandas. Assim como a memória, o trem funciona para os dois lados. Pode, bem depressa, fazer retornar tudo o que você deixou para trás durante anos. Lake Bluff, população 10.000, emergiu no céu. Margareth estava tão elegante naquelas roupas novas, e finas. Ela me observava, via o velho mundo reunir-me de volta àquela vida. Segurou meu braço quando o trem deslizou estação adentro, em Bluff, e quando o carregador transportou nossa bagagem. Tantos anos, e o que eles fazem com as fisionomias, com os corpos das pessoas. Quando caminhamos juntos pela cidade, não vi ninguém que reconhecesse. Alguns rostos emanavam ecos. Ecos de caminhadas nas picadas da ravina. Rostos com um certo riso de fim de ano, de balançar em balanços de elos de metal, e de descer e subir em gangorras. Mas não falei nada. Caminhei, olhei e preenchi o interior com todas as reminiscências, e deixei-as qual folhas empilhadas para a secagem do outono. Ficamos, ao todo, duas semanas; juntos, revisitamos todos os lugares. Foram dias felizes. Eu pensava que amava Margareth, muito. Ao menos pensava. Num dos últimos dias, fomos caminhar pela praia. O ano não estava próximo ao fim, como estava naquele dia, há tantos anos, mas já os primeiros vestígios do abandono surgiam na praia. As pessoas rareavam, muitas barraquinhas de. cachorro quente já haviam sido fechadas com tapumes, e lacradas, e o vento, como sempre, lá estava, esperando, para cantar para nós. Quase vi mamãe sentada na areia, do jeito que costumava sentar. Percorreu-me, novamente, a sensação de querer ficar só, mas não poderia forçar-me a conversar a respeito disso com Margareth. Então, mantive-me ao lado dela e esperei. A tarde já se ia. Quase todas as crianças já haviam ido para casa, e apenas uns poucos homens e mulheres ali estavam aquecendo-se à brisa do sol. O salva-vidas pulou dentro d'água. O salva-vidas saiu da água, devagar, com alguma coisa nos braços. Fiquei petrificado. Prendi a respiração, senti-me pequeno, com apenas doze anos de idade, muito pequeno, infinitesimal, e com medo. O vento uivava. Eu já não via mais Margareth. Via apenas a praia, o salva-vidas emergindo do bote com um saco cinzento nas mãos, não muito pesado, e o rosto do salva-vidas, quase tão cinzento enrugado. — Fique aqui, Margareth — eu disse, e não sei por que o disse. — Mas, por quê? — Fique aqui, e não discuta... Lento, caminhei pela areia, fui encontrar o salva-vidas. Ele me olhou. — O que há aí? O salva-vidas continuou olhando para mim, por muito tempo; não conseguia falar. Pousou o saco cinzento na areia; a água borrifou-o, molhouo, e voltou. Insisti: — O que há aí? O salva-vidas estava tranqüilo. — É estranho. Esperei. — É estranho — repetiu, suave. — A coisa mais estranha que já vi. Ela já está morta há muito tempo. Repeti estas palavras. Ele concordava, com a cabeça. — Eu diria, uns dez anos. Nenhuma criança se afogou aqui esse ano. E de 1933 para cá, apenas doze crianças, e todas foram encontradas algumas horas depois. Todas, menos uma, eu me lembro. Essa aqui, porque ela deve estar na água há dez anos. Não é nada... agradável.. Fitei o saco cinzento nos braços do salva-vidas. — Abra! — eu disse, sem saber por que o disse. O vento soava mais alto. O salva-vidas manuseou o embrulho, atrapalhado. Gritei. — Depressa, homem, abra! — É melhor não... Creio que ele percebeu a expressão de meu rosto... — Ela era tão pequenininha! Abriu-o parcialmente. O suficiente. A praia estava deserta. Havia apenas o céu, o vento, a água e o outono, que se aproximava solitário. Olhei para ela, ali dentro do saco. Eu disse alguma coisa, repetidas vezes. Um nome, O salva-vidas olhou para mim. Perguntei: — Onde o senhor a encontrou? — Aí dentro d'água, no raso. É muito tempo, muito tempo; o senhor não acha? Balancei a cabeça. — É sim, Por Deus, é sim. Pensei: as pessoas crescem. Eu cresci. Mas ela não mudou. Ainda é pequenina. Ainda jovem. A morte não nos permite crescer, ou mudar. Ela ainda tem os cabelos dourados. Será jovem para sempre, e eu a amarei para sempre. Meu Deus, eu a amarei para sempre. O salva-vidas amarrou novamente o embrulho. Pela praia, alguns momentos depois, caminhei sozinho. Parei e olhei para alguma coisa. Foi aqui que o salva-vidas a encontrou, disse para mim mesmo. Lá estava, na orla da água, um castelo de areia, construído pela metade. Olhei para o castelo. Ajoelhei-me ao lado dele, e vi as pequeninas pegadas saírem do lago, voltarem para o lago e não retornarem jamais. Então, eu soube.
— Eu a ajudo a terminá-lo — eu disse.
Ajudei. Bem devagar, construí o resto; depois, levantei-me, virei-me e saí dali para vê-lo desmoronar com as ondas, como tudo desmorona.
Pela areia, voltei até o lugar onde uma mulher estranha, de nome Margareth, esperava por mim, sorrindo...

1 comentários:

henry disse...

Demais teu blog e tua visão de vida parecida com a minha. Grande braço!!!

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